Nascida no Rio de Janeiro, a atriz, roteirista, escritora e produtora Bruna Lombardi adotou São Paulo como cidade natal e virou “paulista de coração”. Estreou na literatura com o livro de poesia No Ritmo Dessa Festa, em 1976, e no ano seguinte na televisão, com a novela Sem Lenço, Sem Documento, de Mario Prata. Foi Carla, Estela, Mariana, Anamaria, Patrícia, Bettina, Gardênia, Frida, Lena, mas na minissérie Grande Sertão: Veredas, baseada no livro homônimo de Guimarães Rosa, Bruna interpretou Reinaldo Diadorim. Uma experiência marcante, que resultou em um de seus sete livros. Casada com o ator Carlos Alberto Riccelli há 30 anos, mãe de Kim, a atriz mora com a família entre Los Angeles, nos EUA, e São Paulo. Bruna vem dedicando-se principalmente ao cinema. Em 2008, lançou O Signo da Cidade, filme no qual assinou o roteiro e interpretou Teca – uma astróloga que liga todos os personagens da trama –, com direção de Riccelli e assistência do filho Kim, que fez sua estreia como ator e deixou a mãe coruja orgulhosa. Sempre muito consciente Bruna se engajou na campanha contra o câncer de mama e agora é uma das madrinhas da Femama. “É preciso batalhar muito e se informar sempre”, diz a atriz. Somente assim conseguiremos atingir nosso principal objetivo: salvar vidas!
Fale sobre o início de sua carreira.
Vou dar pinceladas, porque são tantas coisas. Estudei no Colégio Dante Alighieri e me formei em duas faculdades, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Fiz as duas ao mesmo tempo. Depois publiquei meus livros, que já são sete, fiz muita televisão, muito teatro e agora cinema.
Você interpretou vários papéis na televisão, mas um ganhou destaque especial, o Reinaldo Diadorim da série Grande Sertão: Veredas, em 1985. Como foi interpretar uma mulher que se passava por um homem?
Foi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida, tanto que resultou no meu livro O Diário do Grande Sertão. Fiquei três meses morando no sertão, em um lugar que não tinha absolutamente nada, não tinha luz elétrica, nem água, não tinha televisão. Não era uma cidade, era um grande acampamento no meio do sertão. Foi uma experiência de vida tão divisora de águas, ainda mais vivendo o papel de um homem, que eu resolvi escrever um diário, que resultou no livro. Acho que todo mundo passa por um grande momento de realizações, de crescimento. Pra mim foi um grande crescimento.
Uma realização e um texto maravilhoso...
Pois é, e poder mergulhar naquele universo extraordinário do Guimarães Rosa, e sobretudo a beleza da natureza, em estado bruto, em estado selvagem.
Foi uma experiência inesquecível?
Pra você ver como a mulher é uma coisa tão misteriosa, durante o período em que fiz o Diadorim eu não menstruei. Acho que estava trabalhando só com os hormônios masculinos (risos). Veja como a mulher possui sua propriedade e sua influência nesse reino que ela tem, que é o próprio corpo humano.
Você tem algum personagem preferido?
Não. Eu sempre gosto do que estou fazendo e daquele que vou fazer.
Você agora está mais voltada para o cinema?
Sim, fizemos o filme O Signo da Cidade e ele recebeu sete prêmios; inclusive o Cidadania em Respeito à Diversidade, um prêmio que morri de orgulho de receber. Já estamos preparando novos projetos, e é um momento muito legal, muito fértil. O roteiro original é meu, virou livro depois. Aliás, foi roteiro, filme e depois livro.
Como é o seu processo de criação?
É preciso ter muita disciplina e mergulhar dentro do seu universo, dentro de si. A gente vive constantemente num processo de criação, um processo que é delicado e dedicado, que exige, além de muita dedicação, muito trabalho. Eu paro de fazer televisão durante um tempo justamente para poder trabalhar nesse processo de criação com mais mergulho, de forma mais profunda.
Como é a Bruna profissional multimídia, mãe, esposa, uma mulher linda?
Todas as mulheres, todas, sem exceção, têm um acúmulo de papéis. Muitas coisas que a gente é obrigada a fazer na vida são da mulher já por ela ser uma mulher. Ela tem esses papéis e mais todos os outros que são impostos e os que a gente mesmo se impõe. Acho que toda mulher é uma grande malabarista, em cima do fio, carregando um monte de pratinhos e tomando sempre o maior cuidado pra não quebrar nenhum. A gente é assim mesmo, e isso é o lindo da mulher.
Como é o seu relacionamento com o Riccelli e com seu filho, Kim?
A gente é muito unido. Todos trabalham, eu, o "Ri", o Kim. Trabalhamos juntos no filme O Signo da Cidade. Foi a estreia do Kim como ator, ele está lindo, está ótimo e, além de ator, foi também diretor assistente do filme. Então somos muito unidos, formamos um núcleo mesmo, de vida, de trabalho, de ideias, de buscas. Acho que temos essa estrada juntos.
Com você vê a mulher na família?
A mulher tem qualidades fantásticas que os homens até invejam. A gente consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, por exemplo. Isso por necessidade histórica nossa. São treinos, porque as mulheres sempre foram obrigadas a trabalhar em jornada dupla, com muitas coisas diferentes, e a ter a cabeça boa pra muitas coisas. E ainda por cima, de certa maneira, ser o grande apoio, o grande fio-terra, o centro da família, o que é muito o resultado do pensamento e do sentimento da mulher.
Ela é o porto seguro?
É quem dá o rumo, a direção. Eu acho que a mulher é a grande responsável pela conduta do cidadão. Se você passa bons valores, certamente terá cidadãos melhores. Então eu acredito que o respeito da cidadania começa na mulher. Essa consciência passa por todas as camadas sociais e pessoais que existem. É dela que vem essa consciência. Porque, se o filho está abrindo a janela do carro e jogando uma embalagem na rua, ou uma garrafa plástica na praia, você é um pouco responsável por isso. Porque você tem de educar o seu filho para que ele não faça isso. Os valores vêm da família. Então você tem de ensiná-lo a amar a natureza, a compreender que a cidade não é lixo, que não se pode jogar uma coisa no rio nem no mar, e daí por diante.
Você cuida da sua saúde, tem o hábito de ir ao médico, faz exames periódicos?
Definitivamente, sim. Tenho uma médica ótima e faço sempre esse controle. Cuido da minha alimentação, não fumo, acho que o cigarro é sempre prejudicial, e acredito que você é o estilo de vida que leva. Claro que, para uma pessoa que trabalha fora, que pega condução, que tem jornada tripla de trabalho, que acaba comendo como pode e em qualquer lugar, é preciso um esforço ainda maior para se segurar, se cuidar. E esse cuidado eu considero fundamental. É essencial que a mulher esteja atenta, nós somos pessoas muito sensíveis. A gente tem uma facilidade maior para sensações, para sentimentos, nós somos um terreno mais fértil, digamos assim. Isso está presente na própria fertilidade. A mulher é um universo mais escondido, é toda pra dentro, mesmo que seja expansiva, extrovertida. E acho que tem de ser muito respeitada, por ela mesma em primeiro lugar!
O que é ser uma mulher consciente?
São tantos aspectos... Mas acho que em primeiro lugar é consigo mesma. Não adianta nada você erguer bandeiras – seja na sua participação política, na sua participação no trabalho ou na família – se não olhar para si em primeiro lugar. Então a mulher consciente deve buscar o autoconhecimento, a compreensão das suas loucuras, seja pra que lado for, sem julgamentos, apenas com intuição, para poder trabalhar isso. Sabe, antes de cuidar do mundo, ela tem de cuidar de si. E aí sim você vai para a cidadania, para a forma de educar o seu filho e construir um país melhor, uma cidade melhor.