Nascida no interior de São Paulo, Vera Holtz cresceu inquieta e divertida. Curiosa e xereta, como ela mesma diz, desde cedo programou sua partida da cidadezinha de Tatuí, no interior de São Paulo. Estudou música e teatro, formou-se, participou de vários musicais, foi assistente de produção e de figurino, até “perder o medo” e assumir a atriz que é hoje. Na TV, estreou em "Que Rei Sou Eu?" e, no teatro, o grande momento veio com "Pérola", peça do dramaturgo Mauro Rasi em que vivia uma típica mulher do interior.
Meio paulista, meio carioca, Vera é hoje uma cidadã do mundo, mas não deixa de lado o sotaque e o jeito de ser do interior: “Caipira nasce, vive e morre caipira”, brinca. No começo do ano, estreou como diretora com a peça "O Estrangeiro", de Albert Camus, a convite de seu grande amigo, o ator Guilherme Leme. Vera recebeu a reportagem de Mulher Consciente em seu apartamento em São Paulo e falou da vida, das personagens e do trabalho.
Sua família é toda do interior?
Nasci em Tatuí em 1952, morei lá até os 20 anos, época em que já estava bem inquieta. Minha família é muito grande e eu vivia saltitando de uma casa para outra, porque minha mãe tinha 14 irmãos. Então minha vida foi muito voltada para o outro, para o coletivo, sempre observando, sentada a mesas alheias, muito mais preocupada com o que acontecia lá fora do que com o que acontecia aqui dentro.
Quando surgiu a certeza de querer sair de Tatuí?
Me dava muita angústia ficar lá. Me lembro de estar sentadinha num muro ao lado de casa olhando a neblina – naquela época fazia muito frio em Tatuí – e fazendo secretamente juras para mim: “Eu vou embora, vou ultrapassar essa neblina”. Eram os meus segredos, minhas juras.
Você estudava?
Lá eu fiz Artes Plásticas. Na época, era Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras dividida em Desenho Geométrico e Artes Plásticas, e fiz Música naquele conservatório maravilhoso que tem em Tatuí.
Quando resolveu ser atriz?
Eu não tinha o foco em ser atriz, mas queria fazer artes. Como não conseguia decorar música, pegava aquelas pautas de [Francisco] Mignone e pensava: “Não consigo decorar uma nota!!!”. Então vi que não era minha área mesmo, e eu pensava: “Quero brigar onde eu estiver”. Acho que eu era muito ambiciosa e tinha uma intuição muito forte, além da necessidade de uma fuga daquela estrutura de convenções: casamento, filhos, obediência familiar, pertencimento. Quando vieram as rupturas, o afastamento familiar, eu já achava que era mais importante a busca do meu caminho do que o arrependimento.
Como foi chegar a São Paulo?
Entrei na Escola de Artes Dramáticas da USP e fiz dois anos. São Paulo era uma cidade que estava passando por um período de bastante repressão, era a década de 1970, mas fui embora para o Rio.
E o Rio?
Ainda peguei o Rio com muita passeata, repressão, mas lá se respirava mais. Tinha tudo aquilo, mas não era um movimento tão do operariado como era em São Paulo. O Rio tinha muito intelectual e muito artista na rua, lá você precisava ter a sua liberdade de criar, era uma outra forma de conduzir a sua revolução. E eu fiquei, mesmo sem entender muito, fui sendo conduzida por essas vozes, poetas que recitavam no Baixo Leblon, descobri o chorinho, muita seresta… O Rio de Janeiro era muito lindo, muito legal. Depois vi escola de samba, que nunca eu tinha visto. Foi realmente “um rio que passou em minha vida”. Era de uma exuberância, uma cidade realmente linda, e fui ficando, faz 35 anos que moro lá.
Quando estreou no teatro?
Foi com "Rasga Coração", do Vianinha [Oduvaldo Vianna Filho]. Eu era do coro, que tinha umas 18 pessoas, era imenso. E fui indo, pulando de uma produção para outra, aí o meu nome começou a aparecer. Eu produzia, fazia assistência de figurino, de cenário, assistência de tudo.
Você já havia participado dos bastidores e dos coros, mas quando surgiu a atriz?
Como atriz eu tinha medo… Me lembro de que fui fazer uma peça, ia ser uma grande peça, eu peguei o texto e ia fazer uma mulher mais velha. Eu fiquei tão emocionada de ler e tão emocionada com o que saiu de mim… Eu não imaginava e nunca mais voltei ao ensaio. Era pânico, medo, susto, tudo! Sou caipira, né? Caipira nasce, vive e morre caipira! Com bom humor, com humor caipira.
Quais as primeiras peças que você fez?
Fiz várias produções musicais na época: fiz "Mahagonny", do Kurt Weill e do Brecht; fizemos "Qualquer Nota", eu e a Stella Miranda; fiz "Astrofolia", um musical do Antonio Adolfo; fiz "Um Certo Hamlet e Gertrude Stein" com o Antônio Abujamra; fiz Gerald Thomas; fiz "Lamartine para Inglês Ver"; até conhecer o Mauro [Rasi] e fazer "Pérola" com ele, em 1995. Foi um pouco como entrar no MAM [Museu de Arte Moderna], uma grande exposição. Foi muito legal, a gente ganhou quase todos os prêmios. A "Pérola" é que dá essa guinada. Me apeguei àquilo por ser uma dramaturgia “caipira”, era uma realidade do interior de São Paulo, aquela mistura. Adoro o Rio, sou muito mais carioca, mas eu tenho um carinho muito grande pelo Jeca Tatu, pela figura paulistana, pelo mito do bandeirante e por essa força que é hoje o Estado de São Paulo.
Quando surgiu a TV?
A estreia foi em 1989, com "Que Rei Sou Eu"?, quando encontrei o Abujamra. Eu era a Fanny, assistente do mestre Ravengar. Como é a sensação de sair na rua e ser reconhecida por todo mundo? Eu volto a Tatuí! É uma volta à origem. Em Tatuí todo mundo me conhecia e, como eu era a mil por hora, então cumprimentava todos. Quando saí de lá eu pensava: “Meu Deus, como eu queria ter um cotidiano assim novamente. Sair cumprimentando todo mundo…”. E hoje eu cumprimento todo mundo na rua porque a minha educação foi essa. Eu tenho essa tradição oral, mas peco em outros setores. Essa coisa de cidade grande, de encontros marcados, agendados, isso não é comigo. Eu perco a espontaneidade e travo. Se eu marco uma coisa para daqui a três semanas, hoje eu já quero ir [risos].
E como é a Vera no trabalho?
Sou estudiosérrima! Vou gravar sabendo absolutamente tudo de cor, gosto da relação, das pessoas, me sinto querida, transformo o ambiente numa coisa agradável, não tem tempo quente comigo no trabalho.
Tem alguma personagem sua de que você goste mais?
A "Pérola" foi muito importante pra mim, mas fiquei cinco anos fazendo, deu tempo até de eu desistir dela [risos]. Na televisão você convive muito com a personagem e passa a ter carinho por ela, como, por exemplo, a Santana de "Mulheres Apaixonadas". Uma alcoólatra, professora, que botava em risco a própria profissão, uma personagem à beira do abismo. Adoro a Violeta, essa vilãzona poderosa, rica, e acho bacana ela estar de cabelo branco. Isso mexe muito com a vaidade feminina, as mulheres ficam ao mesmo tempo surpresas e encantadas, assustadas com a possibilidade de manter o cabelo branco. Os maridos gostam, pedem para as mulheres deixarem. A Marion de "Paraíso Tropical" era uma vilã pobre, com dois filhos que não gostavam dela e nem ela deles. Vendia uma coisa aqui, roubava outra ali, era uma bandidinha sem um tostão, tendo que colocar comida na mesa todos os dias. Então, gosto quando há essas discussões sociais, familiares, vale a pena. São essas personagens contemporâneas que me agradam.
Você gosta de fazer vilãs?
É interessante discutir o que é vilania em televisão. Quando "A Favorita" ainda estava no ar, tinha eu com a Violeta, o Silveirinha, do Ary Fontoura, a Flora, da Patrícia Pillar, e ao mesmo tempo tinha o rapaz que havia sequestrado a menina no ABC. Aquilo durou quase uma semana, então a gente se pergunta: o que é ficção e o que é realidade? A criança sabe que nós somos de mentira, tanto é que nos adoram! É que ela sabe, percebe que o vilão está lá, sequestrando a menina, que aquilo é de verdade, enquanto nós estamos brincando. E eu gosto da Violeta, de "Três Irmãs", e nessa novela tem o problema da ecologia, que está por trás de tudo, e ela quer destruir, transformar tudo num resort, que é um pouco o que aconteceu com o Brasil. Não precisava, por isso acho interessante essa discussão.
Quando constrói uma personagem, você pensa em passar alguma coisa especial para o público feminino?
Ah, sim, e a reposta vem direto. A novela é muito interativa. Eu me lembro de quando fiz "De Corpo e Alma" e namorava um stripper, que era o Guilherme Leme, e era uma mulher que cuidava de tudo, uma dona de casa exemplar cujo marido, o Guedes, que era o Ewerton de Castro, não gostava de nada e, na rua, namorava outras mulheres. Um dia ela se rebelou. Eu saía na rua e alguma mulher me confidenciava: “Eu já fui a Simone, Vera”. A Simone foi a primeira mulher que me fez perceber quanto eu mexia com o público feminino. Poder penetrar nesse universo secreto feminino é uma resposta muito positiva, me sinto privilegiada.
Algumas de suas personagens têm uma coisa forte de sedução. Como é isso para uma mulher de 50 anos ou mais?
Acho muito importante, tem de ter sensualidade! Isso é vida! A menopausa é uma implosão de hormônios e é um período de fragilidade, de ouvir um pouco os seus silêncios, você começa a perder a libido, então eu coloco sempre uma pitadinha de sensualidade nas personagens. É um fator muito dominante para o ser humano, o desejo, a sensualidade.
E a Vera é assim?
Não, eu acho que a sensualidade é muito associada ao ego, ao indivíduo, à vaidade, e eu não tenho esse tipo de vaidade, a minha passa por outros setores, como executar bem o meu trabalho. Eu sou muito debochada, a família é toda muito divertida, a gente debocha da gente mesma. Minha vaidade passa então pela minha saúde, faço muita medicina preventiva, gosto de estar bem na minha idade, estar com 56 anos e estar bem, bonita para a idade. Não me interessa ter 60 e viver os 20 anos. Acho que toda idade tem a sua beleza. A Violeta é super vaidosa, a Ornela então… Mas essa era uma adolescente. Nunca trabalhou, era herdeira, rica desde criança e namorava garotos, não tinha como ser diferente, era uma meninona, não tinha cabeça, usava batinha, jeans apertadinho, alongamento no cabelo. Isso também mexeu com as mulheres. Elas podem querer desfrutar de uma segunda adolescência, se assim o quiserem. O mega hair é um bom caminho, eu indico [risos]. A primeira vez em que coloquei, em A Muralha, me achei a própria. Eu lavava e vinha aquela coisa linda, lisa, aquele cabelão. Eu andava até de minissaia, de bermuda, me sentia a adolescente! Coisa mais linda!!!!
E o humor?
Sempre coloco uma pitada de humor, de exuberância, carisma. No caso da Santana era mais difícil, mas nas vilãs eu ponho, sim. Nem na Generosa, de "Cabocla". Essa era meio uma mandioca, uma mulher brava, árida, muito seca. Disponho as personagens em regiões, como se fosse o piano, essas vão ser graves, aquelas menos graves, algumas não têm capacidade para grandes emoções, nem para atitudes mais histéricas, e por aí vai, cada uma na sua tessitura.
Como é o dia a dia da Vera?
Quando estou fazendo novela, meu dia a dia é bem pesado. Faço atividade física quando posso, hidroginástica ou alongamento, me atordoo muito também porque o tempo está justo demais e só abre quando eu tenho uma atividade de interesse, daí ele fica imenso. Acho que o tempo é tão preguiçoso quanto a gente. Quando você exige dele, ele vem e se abre, tudo se organiza. Mas fico muito em casa, vejo seriados, muitos livros de arte que eu adoro, brinco muito de casinha, mudo móveis de lugar, leio, sempre gosto de voltar para casa. Durmo cedo, acordo cedo, brinco com os cachorros, é uma vida simples.
Você cuida da sua saúde?
Faço check-up uma vez por ano, vou ao dentista, ao ginecologista, faço mamografia, fiz a vida toda, porque eu quero chegar muito bem à minha data de validade. Tudo tem data de validade, e a gente também. Mas eu não me assusto com isso. E acho que existem algumas medidas que a gente precisa tomar: parar com o cigarro, diminuir muito a bebida, e essas coisas que tinham muita importância na juventude e que não têm mais. Os prazeres agora são outros e você tem de pensar no que está dentro, não no que está fora. É o lado interior que importa.
Que mensagem daria às mulheres que estão com diagnóstico positivo de câncer de mama?
Vou ser bem honesta, agora que estou com uma amiga em tratamento, sei que é preciso ter muita saúde para tratar do câncer, em todos os sentidos. Acho que uma mulher que adoece tem de privilegiar a sua individualidade, é hora de pensar realmente nela e se cercar do que houver de melhor. E não ficar fingindo que não existe a doença. Ela precisa se inteirar de tudo, precisa estar absolutamente esclarecida sobre o que tem, pelo que vai passar e o que vem depois. O esclarecimento é fundamental para que ela tenha respostas. E se lembrar de que o amor passa por outras coisas. Você não pode associar a sua vida amorosa, afetiva, às mamas! Tem de discutir isso com o parceiro. Claro que é delicado, as mamas estão associadas ao feminino, mas é preciso descobrir outras formas de manter o fluxo da sexualidade, do desejo, fluxo que por um tempo pode sumir, mas que depois retorna. Tem de entrar com a cabeça erguida na doença e segurar o touro, porque é uma fase bem severa.
O que é uma mulher consciente?
É a mulher lúcida, porque a melhor droga hoje em dia é a lucidez. É aquela que sabe e tem consciência da época que estamos vivendo, que mundo é este, que país é este – que é de terceiro mundo, isso tem de estar muito claro –, e consciência do nosso planeta, que agoniza cada vez mais. Tem de estudar, hoje a exigência dessa consciência é maior, não é como antigamente, quando você podia saber só da sua aldeia; hoje a aldeia é um pouquinho maior. Você pode continuar com o conhecimento da sua aldeia, mas é preciso ter consciência de que agora ela é global. Temos grandes descobertas, nossas aliadas, a ciência, a tecnologia, mas grandes problemas acompanham isso. É fundamental estar lúcida e cuidar do seu pedacinho, estar consciente do que pode ser feito ali, na sua horta, no seu mundo, e fazer a sua parte.