Não à solidão!
Passado o impacto inicial da notícia de um diagnóstico de câncer de mama, é fundamental que a paciente saiba que não está só, que há muitas fontes de ajuda para tratar uma ferida que não é apenas física, mas também psicológica, para então se juntar a um grupo cada vez mais numeroso de mulheres que venceu essa guerra: o das vitoriosas. É importante ressaltar que essa vitória é resultado de várias ações conjuntas, e o seu emocional deve ser cuidado tanto quanto o seu físico.
Cada vez mais a medicina vê como necessário o acompanhamento psicológico dos pacientes em tratamento. Com o câncer de mama não é diferente. Em grande parte dos hospitais, existe hoje a orientação de profissionais especializados que podem oferecer esse suporte à paciente e à família, e há também os grupos de apoio.
Para Leoni Margarida Simm, que, além de paciente, é a presidente da Associação Brasileira de Portadores de Câncer – Amucc, de Florianópolis, Santa Catarina, o apoio psicológico é fundamental para dar suporte à mulher que recebe um diagnóstico de câncer e deve ser estendido ao longo do tratamento. “O impacto que essa doença gera sobre a pessoa provoca um estresse tanto físico como psicológico, o que vai afetar seu sistema imunológico”, explica Leoni. “É importante que a pessoa se sinta apta e serena para enfrentar um tratamento que, pela sua natureza, é bastante agressivo e assustador.”
Sônia Cavour, coordenadora da Unamama, concorda. “A notícia é sempre impactante, a possibilidade de risco de vida ameaçada tira o ser humano do equilíbrio, tornando o atendimento psicológico uma necessidade”, explica.
Eterno aprendizado
Quando estamos vivenciando um problema que ainda nos é estranho, a melhor saída é conversar com quem está passando ou já passou por aquilo. É isso que ocorre quando você participa de um grupo de apoio. Além de ser acolhida por profissionais da área, é recebida por pessoas que estão na mesma situação, pode aprender com elas e também ensiná-las.
No Grupo de Apoio e Autoajuda para Pacientes de Câncer, o Gaapac, de Recife, em ação há 17 anos, primeiramente é realizada uma entrevista para que eles saibam mais sobre você e conheçam o estágio da doença. Nessa conversa inicial, são expostas as regras de convivência do grupo. “Isso é muito importante porque o que se fala aqui são intimidades, coisas pessoais, fala-se sobre a vida”, explica a advogada Maria Regina de Melo. “É necessário certo sigilo e ética para tratar com elas”, explica.
Quando chega ao grupo, os pacientes participam de reuniões semanais de compartilhamento e são convidados a deixarem a vida lá fora, para conviverem com eles mesmos. “Depois da introspecção, sugerimos que falem de seus medos, suas dores e dúvidas”, explica a advogada. “São vários estágios e, passo a passo, eles têm ideia da caminhada dali para frente”, diz Maria Regina.
“O ser humano não é só o físico, é também o espírito e o emocional”, fala a enfermeira Madalena Andrade, diretora de pacientes do Gaapac. “E é a busca desse equilíbrio entre o físico e o emocional que almejamos no grupo”, esclarece. “Estou há 17 anos no Gaapac, cheguei como paciente de um câncer de ovário, e até hoje aprendo, aprendo e aprendo”, relata.
Participação essencial
Outro ponto fundamental nos grupos de apoio é a participação dos companheiros e da família, que podem aprender a lidar com a nova situação e até mesmo a se comunicar. “Às vezes o familiar não tem condições de ouvir o que o paciente quer dizer”, explica Nilse Balta, assistente social, vice-diretora de pacientes do Gaapac. “É uma pessoa sua, alguém que você ama, tem medo de perder e não quer nem que o paciente fale sobre aquilo que está acontecendo com ele.”
Aliete Calado, diretora-secretária do Gaapac, reitera. “A família, no gostar, no proteger, pode dizer: ‘não vamos falar sobre isso, você vai ficar boa’, e isso tira o foco da paciente que, na verdade, queria dividir, falar, chorar junto.” Portanto, o medo da perda pode atrapalhar essa relação, por isso a participação nos grupos de apoio deve ser estendida também à família. Sônia Cavour, da Unamama, concorda. “Compartilhar alegrias é sempre saudável. No caso das tristezas, torna-se essencial dividi-las para que o sentimento de ‘estar sozinho’ se dilua no grupo que vive o mesmo momento da vida”, esclarece a coordenadora.
Então, não se intimide! Busque o apoio necessário e convide seu companheiro, seus familiares e amigos próximos a participarem com você do grupo de apoio. Isso não é vergonha para ninguém e pode ajudá-la muito a percorrer o caminho do tratamento até a cura, além, é claro, de melhorar a sua qualidade de vida.
E fica um recado de Madalena Andrade, do Gaapac, para todas as mulheres: “para as que não tiveram câncer, cuidem-se para não adoecerem. Para as que tiveram ou têm, lembre-se que câncer não é vacina, ele não imuniza, portanto, cuide de você, da sua qualidade de vida e viva cada momento do seu dia de hoje”.
Texto: Cássia Fragata


